Naquele momento eu não consegui dizer nada. Suas palavras deveriam me acalmar, mas eu estava sentindo mil sentimentos ao mesmo tempo naquela hora, então eu só chorava ali, baixinho, enquanto ele dirigia.
Seguimos rumo ao nosso destino. Ele não falou mais nada, e me deixou ali chorando para que eu pudesse botar pra fora a minha raiva. Já estava tarde, o sol já estava se pondo, estávamos na estrada há quase duas horas. Eu imaginava pra mim mesma que ele morava no fim do mundo, porque aquela fazenda não chegava nunca.
De longe avistei uma pequena pousada na beira da estrada. Então ele olhou pra mim e logo falou: - Vamos parar para descansarmos. Ainda temos um longo caminho pela frente... Assim você pode tomar banho e dormir um pouco.
Então ele desceu, foi até a recepcionista e pediu dois quartos. Nesse momento me senti aliviada, porque eu estava achando que ele fosse querer que dormíssemos no mesmo quarto, já que meu pai me tinha entregue a ele de corpo e alma. Eu estava muito cansada, e já estava mais tranquila. Chorar bastante me fez me acalmar e aceitar. Afinal o que poderia ser pior do que o que eu tinha passado toda a minha vida?
O rapaz se aproximou da caminhonete e estendeu uma chave do quarto. - Toma, espero que esteja mais tranquila. Se precisar de algo estarei no quarto ao lado. Amanhã voltaremos cedo para a estrada.
Peguei a chave e desci com minha bolsa e fui em direção ao quarto. Era um quarto simples, afinal, estávamos numa pousada no fim do mundo, na beira da estrada. Não era de se esperar muito. Mas para mim tudo era perfeito, pois minha cama era dura, e meu pai fazia questão de que eu não tivesse nenhum conforto. Fui pro banheiro, e fiquei quase 2 horas debaixo do chuveiro, coisa que eu nunca tinha feito antes. Meu pai não me deixava gastar muita água nem muito menos me comprava xampoo. Lavei meus cabelos com um xampoo que tinha para os clientes. Após sair do banho eu me senti leve. Parecia que tinha tirado um peso enorme das costas. Enquanto penteava os cabelos pude ouvir um som de um violão. Olhei por uma pequena janela que tinha do quarto. Era ele, sentado em um banquinho debaixo de uma árvore que tinha logo ao lado da pousada.
Ele tocava e cantava. Fiquei ali admirando sem que ele me visse. Mas, como eu estava muito cansada, fui me deitar e logo apaguei. Assim, como de costume, acordei às 4 da manhã, e ainda estava escuro. Após tomar um leve banho e escovar meus dentes, saí pra fora e caminhei um pouco ao redor da pousada. Estava um silêncio. Só o barulho do vento e das árvores.
Me sentei no banco onde ele estava na noite anterior e fiquei ali admirando. O sol já estava surgindo e a paisagem era linda. De repente senti alguém perto de mim. Olhei pro lado e era ele, que logo se sentou ao meu lado. - Bom dia, é uma paisagem muito linda, não é mesmo? - ele me perguntou, enquanto se sentava. Respondi com um leve sorriso em meu rosto.
- Bom dia! Sim, eu sempre gostei de ver o sol nascer. É a melhor parte do meu dia. - falei, e ele olhou pra mim, admirado, pois ele achava que eu não iria responder, já que eu o tinha ignorado desde o primeiro momento.
- Olha, ela fala! - ele disse, com um tom meio irônico e sorrindo.
Após uns minutinhos olhando ali o nascer do sol, ele logo se levantou e me chamou para comermos algo antes de sairmos. Nos sentamos em uma mesa numa pequena área de alimentação ali na pousada. Enquanto comíamos ele me olhava com aqueles lindos olhos azuis.
Eu já estava constrangida pelo jeito que ele me olhava. Afinal, nenhum homem nunca tinha olhado pra mim, muito menos tinham chegado perto de mim. Tinham medo do meu pai. Eu era uma menina bonita, tinha cabelos claros, olhos castanhos e, apesar de ter sido tão maltratada, minha beleza sempre foi radiante. Então terminamos e fomos novamente para a estrada. - Espera só para ver o nascer do sol da minha varanda. Você vai gostar! - o rapaz falou, assim que entramos na caminhonete. Eu só sorri, e fiquei admirando a estrada enquanto o vento balançava meus cabelos.
Continua em: O Fazendeiro - Volume 1 - Capítulo 3
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